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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Basta.

Relação a dois
que não se bastavam.
O terceiro entrou para ser metade de cada
que não os bastava.
Dia de sábado, no samba, a cinco
que nunca bastava.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mulheres.

         “Extrovertida e expansiva, a pesar de seus modos um pouco incômodos, era de uma agradável presença. Seu sorriso era um raio de sol e atraia alguns admiradores.
         Sensível e de aparente bom coração.
         Adoradora da caridade, constantemente ajudava os desfavorecidos. Seus colegas de trabalho mais humildes eram agraciados com sua generosidade sem limites, o que elevava sua fama de boa moça.
         Até o momento em que foi contrariada...
         Usou de um erro do próximo, ao qual ela era conivente, para se vingar de uma questão pessoal.
         Para mim, a pobrezinha sofria de um desvio de caráter muito triste.”

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Papo de homem.

Ontem, conversando com meus irmãos, surgiu um assunto sobre fidelidade. Acabei comentando o caso do cantor medíocre que declarou que, em sua opinião, a mulher deve ser fiel e recatada, enquanto o homem pode ser "galinha" a vontade.
Como já deveria ser esperado, mas me pegando de modo desprevenido, um de meus irmãos indagou:

-Mas não é assim que deve ser?

Certamente ele não lembrou de nossa mãe que lava e passa as cuecas de meu progenitor, apronta comida para ele e administra a casa, enquanto ele sai com as vagabundas conhecidas dele, sabe-se lá se com ou sem a devida "proteção" e correndo o risco de trazer algum tipo de enfermidade para dentro de casa.
Não sei se ele ainda tem "potencial" para atos infiéis, mas já chegou a trazer uma dessas vadias em casa e na presença de minha mãe.
Depois da dita pergunta de meu irmão, me calei. A final, para que eu iria mencionar o exemplo de meu progenitor se é exatamente aquilo que ele orgulhosamente ensinou e que eles seguem a risca?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Reu e sua defesa.

"Ela pergunta o que acontece comigo. Calado e desanimado, não se vêem sorrisos em meu rosto. Tenho, hora ou outra, vontade de chorar, mas o choro fica engasgado em minha garganta. Não há em mim desejo algum de contato com os de casa. Eles, cada um, tem suas vidas que são completamente divergentes e incompatíveis com a minha.

Vê-se que existem privilégios e preferências por "A" ou "B". É um ponto em que não posso tomar as rédeas por não mandar no coração dos outros, mas admito que tenho algum tipo de inveja ou ciumes.

As paredes se encolhem e me espremem as redondezas de por onde eu estou e meu (ou o que seria meu) espaço se consome. Minha postura orgulhosa já foi quebrada para tentar mudar as causas de meu isolamento, mas a mudança, por ser unilateral, foi inútil. Inútil a ponto de perder a dignidade insistindo que algo mudaria.

Será mesmo que apenas eu estou caminhando torto nesta reta? É uma questão que não consigo responder, mas se me fosse pedido para optar, optaria por dizer que errado está o mundo.

Resolvi voltar ao velho ser; reprimido e calado.
O silencio e a solidão me agradam.
Complicado é estar só quando a casa tem alguém ou algum aparelho que quer atenção, mas talvez seja possível tentar suportar todo o incomodo, como o incomodo que o escritor tem em suas longas linhas criativas de belos textos, tais quais os de Quintana.

No trabalho, outra série de complicações geridas pelo convívio e pelo que foi trazido de casa me levam ao auge da insanidade. Não existe, sequer, uma salmoura para um pé cansado.

É evidente que minha estafa não é movida por um só motivo, mas que os principais estão muito dolorosos. Possivelmente ela já esteja a variar que eu seja louco... ou esteja querendo atenção...

Por final, sei que se ela realmente quisesse saber de mim, procuraria os meus montes amontoados e espalhados por ai a fora e entenderia, revirando meus restos, tudo que se passa em meu coração."

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Complexo penitenciário.

"Havia amarrado seus pulsos no pé de uma cama de casal e se deixava levar pelos ventos das convenções do ser humano. Todo um potencial de vida foi reprimido e aquela vida ia definhando e definhando sem perspectiva de futuro.
Até que, em sua cabeça, veio a possibilidade de liberdade condicionada. Passou a empenhar seu tempo útil no exercício das coisas que haviam sido reprimidas todo aquele tempo. A liberdade acelerava o veículo da vida e, a pesar de ter o controle da situação, não queria frear aquele impulso.
Todos que estiveram próximos todo aquele tempo passado começaram a ser ignorados um a um. Só havia vida em sua mente.
Perdera a sensibilidade.
Deixara os sentimentos se confundirem.
Queria tudo de uma só vez.

Fica, assim, a expectativa do que será quando for encontrada a chave das algemas."

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Moribundo

"Pobre rapaz, havia nascido com uma doença congênita que provocava tumores horrendos em seu dorso. Tinha a semelhança de uma sacola de carne colada em suas costas e, de tão desgastante que era sua enfermidade, vivia curvado e todos os seus sentidos eram afetados.
Por milagre, sua visão tinha momentos de clareza e, em sua juventude, pode encontrar o tratamento para seu causo com alguém especial. Alguém que sempre esteve a disposição mas nunca fora tão claramente notado como no bendito momento.
O tratamento foi demorado. De anos.
Sua cirurgia foi muito bem, embora tenha ficado com uma enorme cicatriz no dorso.
Cometeu uma grave falha quando suspendeu seu tratamento pós-operatório. A esplêndida recuperação cessou e seu câncer voltou.
Agora, ironicamente, sua visão não foi afetada. Ele pôde ver todo o processo de degradação de seu corpo, outrora ocultado por sua cegueira."

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Lamentos de bebado apaixonado.

"...Não sei porque deveras me esquecestes. Fico recauchutando meus pensamentos a fim de limar as culpas que imagino ter, como comentei, mas pesa a digestão do fato ainda corrente. Ontem, após o banho, ainda tencionado pelo dia de sexta, lembrei de quando me estimulavas as retinas com suntuoso cruzar de pernas, discreto como o andar do lince encurralando a presa.
Por que para o limbo foram-se as noites de braços e abraços aconchegantes como cachecóis em dias frios?
Tenho para mim que realmente fizeste um escambo desigual.
Quem me fez juiz para questionar, proferir sentença condenatória ou diferençar sua atitude?
Porem, por alguns momentos insanos, cri que haveria possibilidade de uma troca adulta em outra esfera de convenções dentro de nossa tribo comum.
Hoje, outras damas me aparecem cercadas de seus despudores e, ousadamente, lançam seus lenços de seda por sobre o chão e suas vergonhas por sobre vielas e becos sem nenhum constrangimento, a fim de adicionarem meu nome em alguma de suas longas listas de degustações.
Vou prescindindo...
Quem sabe algum dia me apareça alguma guria com os seus mesmos traços altivos de fera em alactamento e com a mesma beleza de ave da Cruz do Norte..."

terça-feira, 6 de abril de 2010

Romance pós-moderno.

"...ela tinha usado um subterfúgio em um site de relacionamentos para ser "avisada" se seu amado tivesse desperto um mesmo interesse afetivo por ela. Interessante foi que não demorou muito para ter a confirmação daquilo que a timidez não permitiu perguntar face-a-face.
Depois disso, longos diálogos virtuais percorreram um tempo infinito em dias até que, em um dia chuvoso, eles acabaram se encontrando de modo mais intimo e descobrindo que todo o sentimento, que aparentemente tinham, fora atrofiado pela prancha de chaves do computador pessoal.
Ficou mais interessante, para o casal, manter um relacionamento virtual, onde sempre tiveram mais assunto..."


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Prazeres vãos.

“Não havia paz ali. Pairava uma euforia vã sobre os procidentes que, no alarde do movimento, exalavam fluidos de desgaste de peças que não serão mais as mesmas com o tempo. Trombetas ensurdecedoras anunciavam a marcha desorientada e todos buscavam um gozo finito de momentos mentirosos de deleite. E deleitavam-se em seu cansaço, e agonizavam em suas bebedices, e esparramavam-se em sua fanfarronagem, sempre cantando vantagem do poder que não tem e exibindo a beleza que não é sua.
No dia seguinte, tudo passou e só ficaram as dores de parto do filho mau gerado e o lamento da colheita do que foi mau plantado.”