quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Resistência ao progresso.

"Já foi o tempo que novidades da tecnologia demoravam a chegar ao Brasil. Melhor ainda é quando as iniciativas da ciência podem ser colocadas logo em prática. Muitas vezes fazemos a descoberta e perdemos para outros, como o rádio, do padre Landell de Moura, o avião, de Santos Dumont.
Como demora a chegar a inovação lá de fora para nós. O câmbio automático, que agora vai se popularizando, entrou em série comercial nos Estados Unidos há 58 anos.
Revi o filme “O pecado mora ao lado”, que fala da chegada da TV a cabo a Nova York. O filme foi feito em 1955.
O cinto de segurança, novidade hoje para alguns, instalei no meu carro há 43 anos, porque percebi que ia demorar a chegar da montadora. A informática demorou a chegar e, quando chegou, ficou engessada por uma reserva de mercado que durou cinco anos.
É bom lembrar que as portas do progresso estão nas nossas mentes. Nós abrimos ou a deixamos fechadas."

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Reu e sua defesa.

"Ela pergunta o que acontece comigo. Calado e desanimado, não se vêem sorrisos em meu rosto. Tenho, hora ou outra, vontade de chorar, mas o choro fica engasgado em minha garganta. Não há em mim desejo algum de contato com os de casa. Eles, cada um, tem suas vidas que são completamente divergentes e incompatíveis com a minha.

Vê-se que existem privilégios e preferências por "A" ou "B". É um ponto em que não posso tomar as rédeas por não mandar no coração dos outros, mas admito que tenho algum tipo de inveja ou ciumes.

As paredes se encolhem e me espremem as redondezas de por onde eu estou e meu (ou o que seria meu) espaço se consome. Minha postura orgulhosa já foi quebrada para tentar mudar as causas de meu isolamento, mas a mudança, por ser unilateral, foi inútil. Inútil a ponto de perder a dignidade insistindo que algo mudaria.

Será mesmo que apenas eu estou caminhando torto nesta reta? É uma questão que não consigo responder, mas se me fosse pedido para optar, optaria por dizer que errado está o mundo.

Resolvi voltar ao velho ser; reprimido e calado.
O silencio e a solidão me agradam.
Complicado é estar só quando a casa tem alguém ou algum aparelho que quer atenção, mas talvez seja possível tentar suportar todo o incomodo, como o incomodo que o escritor tem em suas longas linhas criativas de belos textos, tais quais os de Quintana.

No trabalho, outra série de complicações geridas pelo convívio e pelo que foi trazido de casa me levam ao auge da insanidade. Não existe, sequer, uma salmoura para um pé cansado.

É evidente que minha estafa não é movida por um só motivo, mas que os principais estão muito dolorosos. Possivelmente ela já esteja a variar que eu seja louco... ou esteja querendo atenção...

Por final, sei que se ela realmente quisesse saber de mim, procuraria os meus montes amontoados e espalhados por ai a fora e entenderia, revirando meus restos, tudo que se passa em meu coração."

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Complexo penitenciário.

"Havia amarrado seus pulsos no pé de uma cama de casal e se deixava levar pelos ventos das convenções do ser humano. Todo um potencial de vida foi reprimido e aquela vida ia definhando e definhando sem perspectiva de futuro.
Até que, em sua cabeça, veio a possibilidade de liberdade condicionada. Passou a empenhar seu tempo útil no exercício das coisas que haviam sido reprimidas todo aquele tempo. A liberdade acelerava o veículo da vida e, a pesar de ter o controle da situação, não queria frear aquele impulso.
Todos que estiveram próximos todo aquele tempo passado começaram a ser ignorados um a um. Só havia vida em sua mente.
Perdera a sensibilidade.
Deixara os sentimentos se confundirem.
Queria tudo de uma só vez.

Fica, assim, a expectativa do que será quando for encontrada a chave das algemas."

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Paradoxo.

Por mais que se exerça a caridade, sempre temos a expectativa de retorno do próximo. Igualmente difícil é dar o retorno quando estamos cegos pelas nossas conquistas.

Realmente é muito bom estar a vontade. Igualmente perplexo é deixar seu próximo a vontade quando não se consegue ver além do mundo em que você vive.

Todas as formas de amar valem a pena. Igualmente inverso é o desejo de ser amado ou sentimento de ser, por um minuto, o centro de todos os desejos.

Os piores são os ausentes de coerência. Igualmente injustos os excessivamente racionais.

Belos são os libertos pelo amor. Igualmente insanos são os de mente gerida  pelos deleites pérfidos e corruptíveis desse mundo.


Sem mais palavras, vou traçando uma linha de vida sobre tentativas de viver em simplicidades. Preferindo o gozo das coisas fúteis, não me alegro na hipótese de grande luxo. Acho que sabendo viver com o pouco, o muito não se fará falta. Acostumando-se com a possibilidade do muito virar pouco, aprende-se a gerir o máximo sem ser dependente dele.

Igualmente grandiosos são os atos dos soberbos que acreditam estar sempre com a verdade, ignorando dar ouvidos ao que está ao seu lado. Sempre com suas opiniões bem formadas, não enxergam que a vida é um grande teorema que aponta para a relatividade das coisas. Que querem sempre mais, mas não fazem por onde o ter e sempre acham que são exemplo de alguma coisa de bom ou útil.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Só.

Este final de semana que se passou, estive só em casa. Talvez já tenha comentado quanto ao meu desagrado de estar só ou de vir a estar só, mas especificamente este final de semana, fora o tédio, pude perceber que não é uma coisa tão desagradável assim.

Não fiz muitas coisas. Basicamente aproveitei o ócio. Bacana poder estar só sem ter de dar atenção a alguém ou escutar incomodas coisas que não são necessariamente direcionadas a você, mas estressam volta e meia. Também me agradou ter um dia todo para fazer o que eu queria ou deveria, mas apenas no meu tempo. No tempo de minha vontade.

Talvez meu desejo de viver só tenha raízes em pequenas coisas como poder limpar quando der na telha, encontrar um objeto exatamente no lugar onde deixei minutos antes, lavar quando der vontade, comer quando der na telha...

Me pergunto o por que das coisas não poderem ficar algum tempo largadas fora do lugar que foi determinado para elas. O por que de tantas regras dentro de um ambiente de quatro paredes que deveria ser confortável.

Me pergunto para que tanta regra se Deus criou as coisas a partir do caos. Alias, que caos? Pensando direitinho, nem ele existia! Não existia nada! Nem o "nada"! Logo, penso eu, que Deus criou também o caos e o nada para por como plano de fundo da obra de suas mãos. Obra esta que, em cada passo, a um tudo qualificou como bom.

Na verdade, isso é para quem acredita em Deus. Eu creio e ponho fé nisso, mas fique a vontade para interpretar como quiser.

Não sou avesso a ordem, mas já saturei da ordem dos outros. Um homem que passa dos 18 anos e ainda vive na casa dos pais tem lá seus problemas com isso, como estou tendo...

Após esse gostinho de solidão e privacidade que a muito não tinha, fiquei com desejos ainda maiores de conquistar um patrimônio.

Tristemente será a fortaleza da solitude.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O que me forma?

Sou vaidoso.
Acho justo procurar manter um pingo de cuidado consigo mesmo, mas das coisas que mais me fascinam, certamente as mais interessantes são as possíveis transformações de meu corpo.
Já analisei bastante minhas fotografias de quando novo. Sorte minha ter nascido na era da fotografia colorida, pois toda estranheza de minhas formas anteriores pude contemplar.
Tive cabelos vermelhos apenas no topo da cabeça, pele clara e ausente de pelos, quase que nenhum sinal pelo corpo e vários outros detalhes que uma criança poderia ter de peculiar em si.
Hoje, com meus 182 centímetros de altura, tenho pelos por todo o corpo, vários sinais, ficando calvo no topo da cabeça, cabelos (os que ficaram) pretos e inúmeras variações de peso ao longo de minha juventude.
É muito legal ver as estrias que apareceram em minhas coxas e as rugas de minha testa. Também as rugas dos meus olhos que, ainda discretas, são muito engraçadas.
De certo que elas, as mudanças, não vão parar.
Logo estarei de cabelos brancos, se eles se mantiverem em minha cabeça, surdo, cego, dolorido...
Não me incomodo.
Na verdade, dou graças a Deus pelo favor imerecido da vida e pela vivência obtida ao longo do tempo. Também pela graça de ter a ciência de que as coisas são passageiras... a vida é passageira.

Acho que é assim que sou. Isso que me forma.
O único desejo profundo de mudança que tenho neste momento e poder tirar definitivamente minha barba. Não por vaidade, mas por puro comodismo.
Admiro cada parte do meu corpo. Não tenho desejos de nenhuma mudança drástica.

Agora, toda essa admiração quanto as possibilidades de mudança de meu corpo me fazem perguntar o porque da busca incansável e eterna pela beleza e o que faz com que as pessoas se machuquem tanto em mesas de cirurgia nunca estando satisfeitas com os resultados não naturais de seus corpos. Não vejo nada mais belo que aquilo que acontece naturalmente com cada um. Acho digno saber envelhecer. Nada mais belo e honrado que envelhecer com dignidade.

Para os naturalistas, digo que nada mais natural que saber apreciar a mudança de si mesmo;
Para os narcisistas, digo que lamento por não poder ajudar a reconhecer a beleza do passar do tempo;
Para os religiosos, digo que nada mais louvável que admitir que é uma dádiva divina o reconhecimento da "decadência humana" ou do amadurecer da humildade;
Para os preocupados com a morte, só lamento.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Moribundo

"Pobre rapaz, havia nascido com uma doença congênita que provocava tumores horrendos em seu dorso. Tinha a semelhança de uma sacola de carne colada em suas costas e, de tão desgastante que era sua enfermidade, vivia curvado e todos os seus sentidos eram afetados.
Por milagre, sua visão tinha momentos de clareza e, em sua juventude, pode encontrar o tratamento para seu causo com alguém especial. Alguém que sempre esteve a disposição mas nunca fora tão claramente notado como no bendito momento.
O tratamento foi demorado. De anos.
Sua cirurgia foi muito bem, embora tenha ficado com uma enorme cicatriz no dorso.
Cometeu uma grave falha quando suspendeu seu tratamento pós-operatório. A esplêndida recuperação cessou e seu câncer voltou.
Agora, ironicamente, sua visão não foi afetada. Ele pôde ver todo o processo de degradação de seu corpo, outrora ocultado por sua cegueira."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pessoa e pessoas.

Fatigado de todos, já não tenho muitos ouvidos para me ouvir reclamar da vida. Parece que os problemas dos outros são sempre maiores que os meus. A parentela me incomoda, colegas de trabalho me saturam, principalmente por conta do papinho gerado pela copa, irmãos, por mais que eu faça força, não me tratam bem e meus amores não andam bem das pernas.
Paro inúmeras vezes para pensar se eu não fui feito especialmente para viver só.
Canalhice de minha parte porque posso afirmar com toda certeza que Deus me ama e me quer. Eu, todavia, tenho caminhado para outros caminhos que tem machucado meus pés.
De qualquer forma, os problemas dos outros vão ser sempre maiores que os meus e não vou encontrar em outra pessoa, senão na de Deus, alguém com sensibilidade suficiente para entender o que sinto em cada momento e acertar em cheio meu desejo para este ou aquele momento vivido.
As pessoas são egoístas.
No trabalho, por exemplo, tem sempre um querendo fazer caridade as minhas custas para mostrar que é bom, que é caridoso, mas é fácil notar nos olhos que nada é feito realmente por mim e sim pelo seu próprio ego. Talvez forma de tentar agradar a Deus e se livrar de alguma culpa, ou para preencher a necessidade que cada um tem de mostrar que é generoso.

Já que não tenho quem me ouça, acho que hoje vou querer apenas um colo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

J'adore cette chanson!

F Comme Femme

(F como Feminina)

Elle est éclose un beau matin
(Ela desabrochou numa bela manhã)
Au jardin triste de mon cœur
(No jardim triste de meu coração.)
Elle avait les yeux du destin
(Trazia os olhos do destino,)
Ressemblait-elle à mon bonheur ?
(Assemelhava-se a minha felicidade?)
Oh, ressemblait-elle à mon âme ?
(Oh, ela se parecia com minha alma?)
Je l'ai cueillie, elle était femme
(Eu a colhi, ela era mulher,)
Femme avec un F rose, F comme fleur
(Feminina com um "f" rosa, F como flor.)

Elle a changé mon univers
(Ela transformou meu universo,)
Ma vie en fut toute enchantée
(Encantou toda a minha vida,)
La poésie chantait dans l'air
(A poesia cantava no ar,)
J'avais une maison de poupée
(Eu tinha uma casa de bonecas.)
Et dans mon cœur brûlait ma flamme
(E em meu coração ardia minha chama,)
Tout était beau, tout était femme
(Tudo era belo, tudo era mulher, feminina)
Femme avec un F magique, F comme fée
(Feminina com um "f" mágico, "f" como fada.)

Elle m'enchaînait cent fois par jour
(Ela encantava-me cem vezes por dia)
Au doux poteau de sa tendresse
(Com o doce arrimo de sua ternura.)
Mes chaînes étaient tressées d'amour
(Minhas cadeias estavam trançadas pelo amor,)
J'étais martyre de ses caresses
(Eu era mártir de suas carícias.)
J'étais heureux, étais-je infâme ?
(Eu era feliz... e seria eu um infame?)
Mais je l'aimais, elle était femme
(Mas eu a amava, ela era mulher.)

Un jour l'oiseau timide et frêle
(Um dia, o pássaro tímido e débil)
Vint me parler de liberté
(Veio falar-me de liberdade.)
Elle lui arracha les ailes
(Ela arrancou-lhe as asas,)
L'oiseau mourut avec l'été
(O pássaro morreu com o verão.)
Et ce jour-là ce fut le drame
(Naquele dia fez-se o drama)
Et malgré tout elle était femme
(E, apesar de tudo, ela era mulher,)
Femme avec un F tout gris, fatalité
(Feminina com um "f" todo cinzento, de fatalidade.)

À l'heure de la vérité
(Na hora da verdade)
Il y avait une femme et un enfant
(Havia uma mulher e uma criança,)
Cet enfant que j'étais resté
(Aquele menino em que eu me convertera)
Contre la vie, contre le temps
(Contra a vida, contra o tempo.)
Je me suis blotti dans mon âme
(Estou encolhido dentro de minha alma)
Et j'ai compris qu'elle était femme
(E compreendi que ela era mulher.)
Mais femme avec un F aîlé, foutre le camp
(Mas feminina com um "F" maduro, como uma fruta do campo)